Estreia e minitemporada de A MÃE – CANÇÕES PARA ACORDAR BERTOLT BRECHT no Itaú Cultural

Completando 22 anos de existência em 2020, estreamos no Itaú Cultural em São Paulo nosso novo espetáculo: A Mãe – canções para acordar Bertolt Brecht.

Tendo como pontos de partida o romance A Mãe, de Maximo Gorki, e sua adaptação teatral realizada por Bertolt Brecht, além de outros materiais como As confrarias, de Jorge Andrade, e poemas também de Brecht, o espetáculo é estruturado sobre diferentes suportes de linguagem: representação teatral,  cabaré com números e canções ao vivo e projeções.

O trabalho é fruto do avanço de nossas pesquisas no campo do teatro épico-narrativo, eixo principal de investigações e criações artísticas do grupo desde a sua formação, de onde já resultaram 15 espetáculos próprios e inúmeros outros em colaboração com artistas e grupos independentes.

Sinopse

Em uma estrutura que transita do cabaré a intervenções cinematográficas, de cenas teatrais a uma roda de samba, o espetáculo abarca a trajetória de aprendizado sociopolítico de uma mulher comum, através de sua dedicação à causa pela qual luta seu filho, um poeta e escritor de peças. A Mãe – canções para acordar Bertolt Brecht constrói em cena um manifesto dos nossos tempos: uma reflexão sobre o movimento perverso de funcionamento das relações humanas e a necessidade da desnaturalização destas relações.

Equipe de criação

  • Texto e Direção: Vera Lamy
  • Direção Musical: Lincoln Antonio
  • Em cena: Bruno Miotto, Clara Kok, Eduardo Schlindwein, Eugenia Cecchini, João Attuy, Lincoln Antonio, Luiz Viola, Pedro Semeghini, Vera Lamy e Zernesto Pessoa
  • Músicas: Lincoln Antonio e Vera Lamy
  • Cenografia e Adereços: Pedro Pires e Silvana Marcondes
  • Figurinos: Silvana Marcondes
  • Vídeo: Eugenia Cecchini
  • Luz: Giu Valentim
  • Engenharia de som: Duda Gomes e Lucas Silva
  • Sonoplastia: Pedro Semeghini
  • Fotos: Milena Medeiros
  • Orientação de movimento: Fernanda Haucke
  • Participação especial em vídeo: Pedro Pires e Rodrigo Mercadante
  • Produção executiva: Thaís Campos e Zernesto Pessoa
  • Realização: Companhia do Feijão

Eixos criativos do espetáculo

Três são os eixos criativos que nortearam a construção do espetáculo:

  • A música como elemento dramatúrgico através da construção de canções e releitura de poemas.
  • A linguagem do cinema mudo aliada à universalidade gestual do palhaço em suas gags, intercaladas em cenas filmadas e ao vivo.
  • A narrativa épica de uma fábula e sua transposição para nossos tempos, para ressignificar a obra e sua utilidade.

O espetáculo – tema e linguagens

O espetáculo tem como escopo temático a universalização do processo de aprendizagem da população comum, cujo efeito, em última instância, seria o de uma inexorável reordenação das relações familiares. Num embate entre o velho e o novo, a trajetória da Mãe poderia ser metaforizada por um rio retomando seu movimento depois de longo período represado, imprimindo consciência e metamorfoseando experiência de vida em serviço a uma causa. Como sentido geral, poderíamos ancorar o arco temático na afirmação de Walter Benjamin, a propósito da peça de Brecht, de que “se as mães forem revolucionadas, nada restará a revolucionar”.

Dramaturgia

A criação dramatúrgica do espetáculo tem origem e desenvolvimento nos seguintes materiais: o romance A mãe, de Máximo Gorki, a peça homônima de Bertolt Brecht e o texto As confrarias, de Jorge Andrade, somados à pesquisa para o teatro épico/narrativo da Companhia do Feijão.

Como argumento inicial, presente no subtítulo “canções para acordar Bertolt Brecht” do espetáculo, o verbo acordar traz significados distintos:

  • Acordar no sentido de despertar. Acordar as palavras deixadas nos poemas de Brecht aos que vieram depois e que por sua vez também se confrontariam com tempos sombrios.
  • Acordar no sentido de estar de acordo. Acordar com seus propósitos e assim torná-los vitais e pertinentes às nossas criações.
  • Acordar no sentido de fazer soar acordes. Acordar nossa história, contá-la através de canções orientadas por uma fábula.

Tomando como eixo central a figura da Mãe – que vivencia na prática um processo de aprendizado proposto por seu filho –, a dramaturgia do espetáculo acompanha os três eixos de linguagem e encenação (descritos acima) e está dividida em três atos.

  • 1º Ato: O escritor de peças – apresentação de um grupo de teatro recebendo a “visita” do escritor Bertolt Brecht, que traz como proposta de encenação “para esta noite” a obra A mãe.
  • 2º Ato: Em linguagem cinematográfica entremeada com cenas ao vivo, roteiro de ações que conta a fábula de Pelagea Wlassova, criada por Gorki, reinterpretada por Brecht e agora redimensionada pelo grupo.
  • 3º Ato: Epicização do ponto de vista da Mãe que já passou pelo processo de aprendizagem, ganhando sua expressão maior.

Encenação

Primeiro ato: Canções para acordar Bertolt Brecht – O Escritor de Peças

Com canções inéditas criadas a partir dos poemas de Bertolt Brecht, a Mãe torna-se atração de números e canções. Nesta história, em formato de show musical, o filho não é mais um operário, mas um escritor de peças, um artista.

Neste ato, a mãe e um coro de “descendentes” apresentam canções de resistências poéticas, em números estruturados de modo a enfatizar o teor do teatro proposto pelo filho. Considerando que o filho, em nosso espetáculo, não é um personagem, mas sim uma FIGURA construída a partir dos elementos do teatro de Brecht. Assim, o espetáculo propõe um passeio por alguns escritos e teorias de Bertolt Brecht acerca do teatro épico e a função social do teatro dos homens em suas relações, através de uma fábula absorvida de outros autores e reinventada por nós, artistas de hoje.

Segundo ato: A história de Pelagea Wlassova – A Mãe

Este ato é representado por “uma pantomima a la Chaplin” filmada previamente e projetada durante o espetáculo, em diálogo com cenas ao vivo, utilizando a sucessão dos acontecimentos da história de Górki absorvida por Brecht. Na história original, Pelagea Wlassova é mãe e mulher de operário, mulher comum, e preocupa-se com a integridade e emprego do filho que considera ameaçados pelo seu envolvimento com as greves operárias e suas reivindicações. Mas, guiada pelo amor maternal, passa a se envolver em suas atividades, e a partir do entendimento de suas ideias traz para si a escolha do filho.

Pelagea Wlassova representa a transformação social da figura da mãe ao aceitar, compreender e assumir o caminho apresentado pelos ideais do filho. O amor por sua prole a leva a descobrir o sentido da luta pela justiça social, num redimensionamento da relação familiar, aqui estendida a um sentido coletivo de preocupações e ações direcionadas a todos os seres humanos.

Terceiro Ato: A dialética está em casa, dentro das quatro paredes da prática e em pé na soleira do momento – A Narrativa

Este ato tem na sua origem a busca pela representação material da teoria, através de uma narrativa direta que coloca em cena o processo de construção do pensamento.

O coro de descendentes representará aqui a lógica revolucionada proposta pela peça A Mãe, buscando seu sentido atual, sua duração e significado nos nossos tempos. O estudo para composiçâo desse ato parte da descrição feita por Walter Benjamim em seus Ensaios sobre Brecht, mais precisamente o intitulado Um drama familiar no teatro épico, escrito a partir da peça de Brecht.

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