ARMADILHAS BRASILEIRAS – programação de conclusão do projeto

Completando em 2013 o seu 15º ano de existência, a Companhia do Feijão apresenta, a partir do mês de abril, a conclusão de seu projeto de investigação artística, que tem como principal resultado a montagem do espetáculo “Armadilhas Brasileiras”. Com o patrocínio da Petrobras, a temporada tem início no dia 19 de abril, no Espaço da Companhia do Feijão, e incluirá ainda uma programação complementar com uma série de encontros, debates e leituras em São Paulo e em outras seis capitais brasileiras.

O espetáculo

Sinopse  Armadilhas brasileiras mostra um Grupo de Teatro em processo de ensaio de uma peça em estilo épico (atores-narradores). Ambientada nos anos 20, a peça trata de uma crise econômica mundial, da revolta dos trabalhadores dela decorrente e de um desenlace final: uma revolução trabalhadora e a tomada do poder. Porém, durante o trabalho surge internamente entre os atores do grupo (que são também os autores da peça) um conflito sobre os rumos da história (seu conteúdo – a impossibilidade de falar disso hoje) e também sobre as formas, o estilo de sua representação (inicialmente uma narrativa clássica – distanciada – que toma o partido dos mais fracos). No transcorrer de “Armadilhas Brasileiras” esse conflito vai se acirrando; o grupo oponente à proposta original, em suas intervenções cênicas, altera conteúdos da narrativa e em seguida, num “golpe cênico”, muda a história que vinha sendo contada. Da mesma forma substitui-se o tom épico da narrativa pelo grotesco. Neste embate chegam a um impasse final.

O espetáculo tem como plataforma três obras terminais de Mário de Andrade (Café, O banquete e A meditação sobre o Tietê), combinadas com trechos inspirados em obras de Bertolt Brecht, Groucho Marx, Oswald de Andrade, Samuel Beckett e Vladimir Maiakovski.

  • Em cena: Fernanda Haucke, Fernanda Rapisarda, Flávio Pires, Guto Togniazzolo e Vera Lamy
  • Argumento e Direção: Pedro Pires
  • Dramaturgia: Pedro Pires e Zernesto Pessoa
  • Direção musical: Flávio Pires e Lucas Vasconcelos
  • Músicas: Companhia do Feijão e Lucas Vasconcelos
  • Cenografia: Fernanda Aloi e Pedro Pires
  • Figurinos: Daniel Infantini e Guto Togniazzolo
  • Iluminação: Pedro Pires e Zernesto Pessoa
  • Vídeos: Leandro Goddinho
  • Projeções: André Menezes
  • Fotos: José Romero
  • Projeto gráfico: Ieltxu Martínez Ortueta
  • Produção executiva: Cláudia Burbulhan
  • Assistência cenografia: Natália Kronig
  • Assistência figurinos: Gregório Candeloro
  • Assistência produção: Paulo Reis
  • Cenotécnica: Valdemir Batista Barros
  • Assessoria de imprensa: Sylvio Novelli Comunicação
  • Colaboração artística: Brava Companhia, Cia. Antropofágica, Denise Namura, Engenho Teatral, Francisco Zmekhol Nascimento de Oliveira, José Antônio Pasta Jr., Luiz Ruffato, Nuno Ramos, Michael Bugdahn, Sérgio de Carvalho e Walter Garcia
  • estreia: 19 de abril, sexta-feira, 21h
  • temporada: sextas e sábados às 21h, domingos e segundas às 20h – até 17 de junho
  • ingressos: grátis – distribuição por ordem de chegada; bilheteria aberta uma hora antes das apresentações; sem possibilidade de reservas
  • capacidade: 50 lugares
  • classificação etária: 14 anos
  • duração: 120 minutos
  • onde: Companhia do Feijão

Roteiro / obras de base

No primeiro ato do espetáculo é contada, em tom épico, a história da crise brasileira do café em 1929, baseada na concepção melodramática da obra Café, escrita no início da década de 1940 por Mário de Andrade. Como ponto de partida, a indignação dos trabalhadores da indústria cafeeira (rurais e portuários) com a exploração perpetrada pelos patrões, sobretudo pela falta de pagamento decorrente da quebra das bolsas. Para estes trabalhadores não resta alternativa a não ser migrar para a cidade.

Durante a encenação do primeiro ato, já desde o seu início, surgem questionamentos por parte dos artistas sobre essa história. Suas formas e conteúdos criam conflitos entre eles, que vão se acirrando, dividindo e marcando posições cada vez mais antagônicas.

O segundo ato abre com a mesma narrativa épica, agora no momento batizado por Mário de Andrade de Dia Novo, onde os trabalhadores já urbanizados assumirão um descontentamento crescente com sua situação de explorados, farão uma revolução e tomarão o poder.

No segundo ato o grupo de artistas descontentes com os rumos da narrativa (por achá-la pouco plausível para os dias de hoje) toma a iniciativa de rompê-la. Começam por inserir cenas novas, não previstas no roteiro original do Dia Novo, cenas que tendem para o grotesco e para a farsa, ainda que retratando o mesmo universo dos trabalhadores. Gradativamente deturpam a direção revolucionária utópica da encenação, até que a ruptura se conclui num “golpe de cena” perpetrado pelo grupo descontente – onde capturam teatralmente um dos narradores do grupo oponente e o transformam em personagem (rebaixando-o em sua função épica – de conhecedor da história).

Esta discussão se abre ao público que testemunha os fatos (como também em momentos semelhantes do primeiro ato). A justificativa do grupo que toma o poder é a de que nos dias de hoje a narrativa revolucionária não tem sentido, que falar de trabalhadores revolucionários é pura ficção, pois os trabalhadores de hoje, em sua maioria, não tem esta perspectiva em seus horizontes, ao contrário, aderiram à exploração do trabalho como a única realidade possível e se viram como podem.

Através do “golpe de cena” o novo grupo de narradores que conduzirá o espetáculo daí por diante adota um tom que tende mais para o grotesco. Para de falar em trabalhadores tradicionais e põe em foco o próprio artista (como trabalhador) enfrentando as contradições entre o que ele gostaria de fazer e falar e as limitações que a realidade lhe impõe; as concessões que ele é obrigado a fazer para realizar sua obra, que em seu limite acabam por corromper seus ideais iniciais. Este ato é baseado em outra obra de Mário de Andrade – O banquete – que versa sobre este assunto: o artista versus a vida que o cerca.

Em seu final, Armadilhas brasileiras colocará em foco um terceiro tipo de narrador, que desde o início esteve presente pontuando a narrativa principal, ora pendendo para um grupo, ora para o outro. Este novo narrador resumirá em si o conflito dos atos anteriores e encaminhará o desfecho para a perspectiva contraditória da impossibilidade de síntese (no sentido dialético) que o momento atual nos apresenta – a falta de horizonte de transformação.

Este terceiro plano narrativo é inspirado pelo poema A meditação sobre o Tietê, última obra de Mário de Andrade. Obra intrincada, obscura, que expõe visceralmente os conflitos internos deste grande artista brasileiro que se dedicou de corpo e alma a desvendar o nosso país e o nosso homem. E que utiliza a metáfora do rio paulista para concretizar esse enigma:

 Água do meu Tietê, onde me queres levar?  Sarcástico rio que contradizes o curso das águas e te afastas do mar e te adentra na terra dos homens, onde me queres levar?…

Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra, me induzindo com a tua insistência turrona paulista para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!…

A pesquisa – gênese e método (sumário)

A Companhia do Feijão realiza com este projeto a conclusão de um ciclo investigativo com a ambição de traçar um panorama do homem brasileiro contemporâneo em relação às “pedras” que encontra em seu caminho, sobretudo as diretamente ligadas a características próprias do sistema em vigor, de difícil classificação, híbrido, errático, sinal manifesto de tempos de crise e transição. Concomitantemente, prossegue com sua pesquisa de linguagem sobre o ator-criador. Com quase 15 anos de trabalho neste domínio, o foco agora está no apuramento das relações dentro do núcleo criativo e ainda suas intersecções com outras linguagens artísticas, notadamente a música, as artes plásticas e o cinema, além da literatura, esteio da companhia desde sua criação.

Entre as circunstâncias que permeiam este projeto, destaca-se a atualidade da discussão sobre as “armadilhas” a que estamos sujeitos num país tão desigual. Uma mescla cruel entre o ultra-moderno e o ultrapassado, onde necessidades básicas de sobrevivência são solapadas pela mercantillização dos sonhos e do bem-estar, dividindo e deslocando o sentido de pertencimento humano possível, de identificação com o lugar onde vivemos, e gerando toda sorte de violências, sobretudo as mais sutis, num processo de (de)formação de cidadãos cada vez mais diminuídos e passivos.

Ancorando o estudo estiveram atividades regulares de preparação e treinamento internas e abertas ao público, trabalho de campo e diálogos com outros coletivos artísticos e representantes de correntes várias de pensamento.

Atividades complementares

A temporada de Armadilhas brasileiras será acompanhada de uma série de atividades complementares. Durante a temporada em São Paulo a programação inclui encontros multiformato paralelos às apresentações, reunindo debates, leituras e projeções referentes a temas abordados durante o processo. No segundo semestre acontecerá a turnê do espetáculo, acompanhado do espetáculo Mire veja, do lançamento e distribuição do documentário em vídeo do processo de criação e de oficinas de teatro e literatura em Brasília, Goiânia, João Pessoa, Natal, Recife e Rio de Janeiro.

O projeto – atividades já realizadas

Durante a primeira etapa do projeto, o trabalho de criação pelo núcleo da companhia incluiu as seguintes atividades de estímulo, suporte e compartilhamento:

  • laboratórios abertos de vivência literária com o escritor Luiz Ruffato;
  • oficinas abertas de criação teatral;
  • apresentações gratuitas dos espetáculos em repertório Enxurro e Reis de Fumaça;
  • intercâmbio artístico e apresentações dos grupos Antropofágica, Brava Companhia e Engenho Teatral;
  • encontros abertos e de trabalho interno com os artistas e pensadores Denise Namura, Francisco Zmekhol Nascimento de Oliveira, José Antônio Pasta Jr., Luiz Ruffato, Nuno Ramos, Michael Bugdahn, Sérgio de Carvalho e Walter Garcia;
  • mostras periódicas de resultados cênicos parciais;
  • criação de um blog (em www.companhiadofeijao.com.br).
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